sexta-feira, 19 de novembro de 2010

SOBRE A GENTILEZA

                                          
Estamos na era da tecnologia. A velocidade com que se tem acesso às informações transcende em muito à nossa capacidade de absorvê-las, tal a rapidez deste acontecimento. Talvez, por absorvermos superficialmente estes conhecimentos (já que, com a velocidade com que nos são imputados, não nos sobra tempo para aprofundá-los) é que tenhamos deixado de lado a gentileza.
É fato que a sabedoria nos traz uma compreensão maior do outro e, portanto nos leva a lidar com este de uma forma mais tolerante e gentil. É fato também de que esta nos chega através do conhecimento. Na verdade, se fossemos pessoas realmente bem informadas e consequentemente sábias a prática da gentileza seria apenas mais um detalhe em nosso cotidiano. Estender uma mão, distribuir sorrisos, erguer um gesto de solidariedade num momento comum ou crucial faria parte de nós como qualquer uma de nossas características.
Hoje é tão difícil encontrar pessoas gentis que, aquelas que o são, deixam admiradas as que convivem com elas. Estas as denominam de muito elegantes ou, então, taxa-as de bobas (o que não é real porque quem é por natureza gentil começa sendo gentil consigo mesmo).
A gentileza abre portas. Atenua agressividades e instantes de mau humor. Dá dignidade a quem a recebe e consciência de humanidade a quem a propaga.
Qual não foi a minha alegria ao receber das mãos de um desconhecido gratuitamente um botão de rosas.
E quando um adolescente me cedeu o seu lugar num escritório?
E quando estava cheia de pacotes e alguém me ajudou a carregá-los até o carro?
Lembro que estes instantes me esquentaram o coração.
Do que já fiz não faço conta porque acho que custa muito pouco ser gentil.
Mas outro dia, no salão, cedi minha hora a uma cliente que precisava estar pronta às três. Quando ela perguntou como poderia me agradecer, menti lhe dizendo que o meu gesto fazia parte da corrente da gentileza e que ela deveria passá-la adiante fazendo o mesmo por outra pessoa.
Não custa tentar fazer daqui um mundo melhor.
A gente exercita a humanidade e se torna uma pessoa mais elegante.
Até a próxima


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

PONTO E VÍRGULA DOIS




Assisto, sempre que posso, à série House pela Universal. Considero-a uma das séries mais inteligentes que tomei conhecimento. O que acho ruim é a maneira deles se referirem aos paises latinos como lugar de gente porca e sem higiene. Referem com menosprezo à nossa comida e água. Mas isto não é novidade vindo de um programa americano.
O Dr. House é uma pessoa, na verdade, benevolente que veste a máscara de perverso por acreditar que a bondade não passa de uma hipocrisia da sociedade. É um gênio, mas maluco. As coisas que ele faz em nome de provar suas teorias mórbidas são incontestavelmente maluquices. Mas trazendo isto para o cotidiano observo que as pessoas, em sua maioria, estão ficando cada vez mais malucas. Quando falo assim, excluo aquelas que já têm um diagnóstico, pois, estas estão geralmente em tratamento e consequentemente sob controle. Falo de gente comum que participa do nosso dia a dia e que são consideradas pela sociedade como saudáveis. Elas fazem coisas que não se encaixam no pensamento lógico. Tenho aqui alguns exemplos. Minha irmã estava dirigindo e, ao parar numa esquina para retornar, esqueceu de dar a seta. Um homem parou ao seu lado e começou a falar todo tipo de palavrões possíveis acompanhados de gestos obscenos. Ela, assustada com a violência, deu partida no carro, ganhou velocidade e tentou se afastar. Mas ele a seguiu e ficava lado a lado com ela em alta velocidade usando da mesma violência. Passou momentos de terror até conseguir se libertar daquela situação que não ficou pior porque ela optou por outro caminho, diferente do que tinha planejado, virando a primeira esquina que encontrou.
Chegou a sua casa tremendo e apavorada.
Houve também o caso da mulher que bateu na traseira do carro do meu sobrinho que estava parado no sinal e saiu do seu veículo toda zangada querendo inclusive receber pelo estrago que ela mesma havia feito. O negócio deu até polícia.
Mais um exemplo:
Eu estava do lado de fora do ônibus esperando o motorista chegar para poder entrar.
Ele chegou arrumou tudo ao seu redor e acomodou-se em sua cadeira Foi quando eu entrei no veículo. O motorista voltou-se para mim e mandou que eu descesse porque ele ainda não estava liberado. Eu desci e ele, daí a trinta segundos, ligou o carro. Subi no veículo com a horrível sensação de ter sido gratuitamente provocada, mas, não deixei transparecer a minha irritação. Sabe-se lá se aquele maluco não estava só aguardando uma reação pra dar vazão a sua loucura.
Mas tem também os engraçados:
Uma mulher me ligou:
— Quero falar com o Carlos
Ao que respondi:
— Aqui não existe Carlos!
Ela:
— Mas eu falei com o Carlos neste telefone.
— Mas não existe Carlos neste telefone.
— Mas eu falei com ele pela manhã
— Mas não existe Carlos neste telefone.
— Ele não existe pra mim, você quer dizer.
— Não. Eu quero dizer que não existe Carlos pra ninguém neste telefone.
— Mas eu falei com ele hoje!
— Mas não existe Carlos neste telefone.
— Olha, você fala com o Carlos, por favor.      
Aí eu perdi a paciência e gritei:
— Não existe Carlos neste telefoneeeeee!
— Por que você está gritando?
— Por que não existe Carlos neste telefoneeeee!
Antes que ela continuasse a insistir desliguei. Não é uma loucura?
Outro maluco:
Eu:
— Alô com quem eu falo?
Ele:
— Com quem você quiser.
— Quem está falando?
— O dono deste telefone.
— Qual o número deste telefone?
— O número que você discou.
— Que telefone é este?
— É o Nokia.
— Mas quem está falando?
— É o dono do Nokia.
— E quem é o dono do Nokia?
— Eu.
Desisti. Com maluco é melhor você desistir. Se você é uma das que deparam com muito deles por aí, preste atenção:
Finja que não os viu ou ouviu.
Fuja deles o máximo que puder porque nunca se sabe qual vai ser a resposta se você reagir.
Tome cuidado!
Até a próxima.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

PONTO E VÌRGULA UM


Passava das quatro horas quando deixei o consultório médico. Já com medo de ir embora à hora do rush decidi pegar o ônibus que me levaria até o Shopping. Era lugar mais próximo a minha casa, onde, então, pegaria um outro carro naquela direção. Vale dizer que abri mão de pega-lo no início de sua jornada (no centro) para pega-lo no meio do caminho contando que chegaria mais cedo. Devo salientar também que não dirijo e consequentemente não tenho carro, dependendo, assim, do transporte público para me locomover.
Apesar de fazer sempre aquele trajeto, tive neste dia a visão real e clara da gravidade da situação de nosso transporte. Coisa que eu ainda não tinha quando passava por aquele mesmo ponto, sentada confortavelmente em minha poltrona, e só me dando conta de como o ônibus enchera quando, no meio do caminho, pessoas que estavam em pé, ameaçavam se despencar no nosso colo.
 Nesta tarde após descer do primeiro ônibus fiquei aguardando a chegada do segundo em meio a um grande número de pessoas. O primeiro que passava pelo meu bairro chegou e quando tentei me aproximar da porta fui praticamente atropelada por uma multidão que ia pegar o mesmo ônibus.
Por quinze minutos o veículo ficou parado aguardando que os passageiros entrassem. Eles empurravam uns aos outros,  acotovelavam-se numa tentativa desesperada de conseguir um lugar. E pensei: — Não vou entrar nisso, não! Posso até me machucar. E aguardei outro veículo.
Mas com todos os que chegavam acontecia a mesma coisa. Aquela gente não era como eu, uma pessoa sem compromissos, que vinha tranquilamente de uma consulta e não tinha pressa. Eram sim trabalhadores cansados e que depois de um dia fatigante, tentavam voltar pra casa onde, com certeza, existiam crianças a serem pegas nas creches, casa para arrumar, comida a ser feita, roupa a ser passada e outras mil tarefas a serem completadas antes que o dia terminasse, a noite caísse e viesse um novo dia de trabalho Não os censurei quando chegaram a atos desesperados como arrombar a porta traseira e entrar por ela à força.
Fiquei furiosa pensando no descaso dos governantes que obrigam  pessoas a chegarem ao ponto de se digladiar com tanta indignidade por um lugar ínfimo neste mundo, negando-lhes o mínimo e essencial que é o direito ao do transporte.
Quando será que o povo será olhado com algum carinho?
Uma semana depois eu não me surpreendia ao ver um palhaço e um jogador de futebol ser alguns dos deputados eleitos mais votados do Brasil.
A propósito, sabem o que fiz naquele dia? Tomei um táxi.
Até a próxima.